querida,

eu te amo há cento e doze anos desde que meus ossos são ossos desde que costuraram minha pele e me botaram turmalinas na face e me banharam em indiferença e me espremeram o calor pelos poros e me moldaram dedos e neles abotoaram tantas unhas
desde que me pincelaram sobrancelhas tortas me ensinando que apenas tua presença as alertariam
desde que escreveram livros sobre nós e me tortutaram com as páginas mais tristes do mundo enquanto me ensinavam a dormir um sono seu
há tanto tempo que ouço o zumbido ensurdecedor que é te amar que para mim já se tornou silêncio e outro silêncio me doeria os ouvidos me faria louco
há tanto tempo que te amo e de longe te vejo morrendo aos pouquinhos por me amar tanto assim e te grito com as sobrancelhas como quem diz me desculpe mas aqui não há calor
e você morre há cento e doze anos e há cento e doze anos te amo com toda a indiferença em que fui banhado

Ainda não me acostumei.