o pior hambúrguer vegano de são paulo

eu conheci um cara legal nesses aplicativos de beijo na boca. e eu já estava enjoada dos caras legais de shortinho curto e frequentadores de rodas de samba, mas ele tinha um humor ácido e cachos bonitos.

eu poderia desenvolver a história desse encontro contando como um dia eu liguei dezessete vezes bêbada para ele falando que queria transar, ou como ele acabou coincidentemente dormindo com minha melhor amiga dois dias antes de nos conhecermos, mas aí eu perderia o rumo dessa narrativa para mais uma vez falar um monte de patifarias sobre minha vida.

acontece que quando eu e o cara legal – que é muito fã do roberto carlos, o que achei engraçadinho – nos encontramos, foi novo. em encontros recentes com homens, tenho percebido diversos padrões quase invisíveis que tornam toda a situação sempre muito familiar. eu, de novo ali, sentindo as mesmas coisas e sendo tratada da mesma forma.

muitas das minhas relações heterossexuais dos últimos anos se iniciaram de maneira parecida: com um homem se apresentando num véu de encantamento e admiração sobre minha pessoa. uma percepção muito breve, e muito superficial, sobre quem sou e o que faço. um tratamento carinhoso, respeitoso, e gentil. um interesse que se pinta como quem quer se aprofundar, como quem precisa me conhecer. minha nossa, como você é diferente das outras. aí a gente fode algumas vezes e baubau, ambos se tornam a pessoa mais desinteressante do mundo.

o cara legal standard muitas vezes se torna o desinteressado, ainda que meus interesses românticos sejam iguais a zero. aí você, que não vale nem pra uma conversinha no whatsapp na quarta-feira a tarde (embora alguns voltem a demonstrar toda admiração possível quando os papos tomam rumos eróticos), percebe que a cena inicial não passava de uma dança do acasalamento das mais mal planejadas: a que coloca a mulher num patamar de fêmea a ser conquistada da forma mais cretina e cafona possível. e claro que aqui há um pouco de mea culpa também. às vezes quem dá o chá de sumiço sou eu.

pois o cara legal que é fã do roberto carlos me trouxe algo novo. nosso encontro não foi repleto de elogios supérfluos e doçuras e gentilezas sem propósito, mas de conversas interessantes e horizontais. sem lugar de bajulador e bajulado, sem jogos de sedução. nossos interesses estavam claros límpidos reluzentes, e ainda assim estávamos gostando de nos conhecer.

por outras quinhentas razões, não tivemos muita química, a atração existia, mas a sintonia entre nossas personalidades parecia tão mais óbvia e certa do que a vontade de foder. ainda assim, fodemos. que pena.

que pena que o sexo afasta as pessoas. depois de uma transa mais ou menos a gente enche a cabeça de conflitos e suposições até então inexistentes, e assim não nos falamos mais. transando, quando o que fizemos de melhor foi sentar num boteco, conversar sobre nós, assistir o jogo do corinthians.

me perguntei algumas vezes como as coisas seriam se assumíssemos que ali existia muito mais uma vontade de continuar uma conversa sobre a judy garland e viagens frustradas do que de nos chuparmos. até que depois de alguns meses de esquecimento, falamos de novo de filmes, e de relações, dos meus avós, de depilação íntimida feminina e do cansaço. e de como a gente gosta de escrita nonsense. no mesmo tom de sempre, na mesma horizontalidade.

e a verdade é que eu não sei concluir esse texto com nenhum aprendizado. é só mais um dos meus tantos vômitos de madrugadas insones.
por vezes ainda caio nos braços da inércia dos dias e amanheço acompanhada de um romance fracassado. e ai que preguiça das danças do acasalamento.

entretanto, o cara legal que gosta do roberto carlos me fez perceber que nesses encontros da vida a gente ganha muito mais se permitindo do que acreditando que o objetivo final é gozar e ir pra casa. (e pra concluir sem hipocrisias: às vezes penso que cairia bem uma foda mais ou menos de novo).

Ainda não me acostumei.