sempre que assisto o índigo tomar o céu antes dos primeiros raios solares, meu coração se parte. sabe, existe algo muito triste no azul que antecede o dia.
em algum momento entre as garrafas de cerveja que se quebram no caminhão de lixo e o despertar do sabiá-laranjeira, uma fenda de angústia se abre na terra. o silêncio do mundo é ensurdecedor e de repente nada mais existe. não existe a noite, nem o dia. nem os jovens apaixonados, a cidade dançante, o café coado, nem os carrinhos de feira. nem você, nem eu.
a solidão é palpável, densa.
eu acho que é lá que se guardam todas as tristezas da vida. na fenda azul no espaço-tempo que passa desapercebida aos adormecidos e aos extáticos, mas engole os corações aflitos num vórtice acrônico.
ali moram todas as despedidas. o fim de nossas infâncias. as ressacas pós euforia, as quartas-feiras de cinzas, os beijos mais tristes que já dei e darei, aquele álbum do Daniel Johnston, a certeza de que se morre só.
eu tenho medo. tenho medo de tudo, o tempo todo.
tenho medo de não ser cuspida de volta à realidade, e tenho medo de fitar minhas tristezas azuis. tenho medo porque as vezes é bonito.
e porque às vezes não quero ir embora.
e me deito no silêncio, desejando que os sabiás acordem atrasados.