os olhos derramando vinho mais que porto

faz exatamente metade da minha vida desde a primeira vez em que te vi. foi no portão de casa, você entrou.
a gente mal se falou e morri de vergonha porque já gostava um pouco de você e fiquei com medo de que não me achasse bonita.
nervosa, eu tentei fingir que era bonita.

você era menino
hoje é um homem meio grisalho e sempre me pergunto qual o nome desse sentimento que dura mais que a melanina dos nossos cabelos. me pergunto será que desse jeito também é amor? eu li que paixão não dura mais de dois anos, mas nunca deu tempo da gente se apaixonar mesmo.

hoje tenho vários fios brancos também.
eles nascem desgrenhados no lado esquerdo da minha franja. uma ruga discreta entre meus olhos é cicatriz de várias preocupações.

mas também de todas tardes de sol aceso que apertei os olhos pra enxergar em tanta luz.
tem um pouquinho de você nessa ruga
será que tem um pouquinho de mim no seu cabelo grisalho?
acho que tem um monte da gente nas relações, nas sessões de terapia, nos antidepressivos. credo.
você disse de brincadeira que nossa hipocondria é uma conversão histérica por nunca termos ficado juntos. achei tragicamente romântico.

não sofro mais esse amor que ficou no quase porque ele é cheio de juventude
e em mim essa juventude está cada dia mais escassa.
em você eu não sei, você sempre foi tão velho. na voz, nas sobrancelhas, nos olhos. seus olhos tem mais de mil anos. acho que você já nasceu com o olhar velho.

mas não o sorriso
você sorri menino, ainda

não sei o que houve mas a gente ficou
tão duro
tão cansado
o amor jovem tem algo de revolucionário tipo a intro de heroes do bowie tipo sair correndo em ebriedade pra dar nosso primeiro beijo.

beijar verde com gosto de menta verde

eu até gosto da calmaria que a vida trouxe
amor calmo vida branda
sei lá, que bobagem isso
querer estar bêbada numa festa cheia de gente chata que não é você e te ligar cantando
where did you go

que bobagem

Ainda não me acostumei.