tristeza cósmica

às vezes penso em quando ligava na tv manchete para ver desenho e apertava o botão rapidamente para evitar o canal 8 que era muito escandaloso.
fiquei maravilhada quando alguém me disse que esse escândalo chiado do canal esquecido era radiação cósmica do big bang ecoando em minha tv, e concluí que assistir um fóssil estelar de bilhões de anos é muito mais interessante do que os cavaleiros do zodíaco.

também li em algum lugar que além das ondas que ecoam em estática na tv, o big bang ainda reverbera em nossos ouvidos um som que ouvimos o tempo todo desde sempre. 

e ninguém percebe que o silêncio é o escândalo do universo se expandindo, afinal nunca houve nada além disso. penso muito nos escândalos silenciosos. 

ana disse que meus pedidos de ajuda são incompreensíveis, eu disse que sempre explodi em quietude. tenho medo de ser zumbido estrondoso do canal 8. tenho medo do grito de socorro ser passado rapidamente. 

acho que minha estática existe como nas pequenas linhas horizontais que passavam despercebidas nos canais sintonizados, enquanto em silêncio a singularidade gravitacional virou o único universo que conheço aqui dentro.


outubro

acordei toda entupida da sinusite e assoei amarelo. me desacostumei com o tempo de são paulo. mas também, quem é que se acostuma?

tem um tempo que parei de perceber o tempo e pra mim esse é o badalar do sino da depressão, que pesa três toneladas presas a uma corda, amarrada a nós navais em minha cintura, enquanto pulo num poço fundo gritando adeus.

nada de novo, mas ainda não perdi o medo. do sino, da corda, do tempo.

ainda no poço dei de reler os contos da lygia pela enésima vez, mesmo tendo parado dois livros muito bons antes da metade e mesmo tendo uma pilha enorme de gibis intocados pegando poeira em minha mesa.

é sempre assim (na tristeza) que vem a releitura dos meus confortos. (mesmo que os que eu encontre na lygia sejam muito espinhudos)

ainda com a cara entupida de manhã, minha mãe quis esperar uma agulha na ponta do meu nariz pra tratar da sinusite. recusei horrorizada. que tortura pavorosa deve ser uma agulha na ponta de um nariz (alérgico)

então ela espetou uma agulha em cada mão e senti choquinhos doídos percorrendo os nervos dos braços tentando avisar meu corpo onde é que precisa desentupir.

me irrita profundamente que neste poço eu só fale de doença.

e só sonhe com desgraça e só escreva porque não consigo dormir.

carta para que não se esqueça

são duas da manhã e você


por que nunca mais me escreveu?


eu não sei porque

mas penso em você todos os dias

desde quando eu fumava cigarros de cravo escondida na rua de trás do colégio eu penso em você todos os dias 

meu bairro ainda cheira a pão. todo início de tarde quando o bairro perfuma pãozinho doce eu penso em você

eu lembro dos cigarros de cravo e da pontas dos seus dedos, eu penso nas crianças hoje saindo da escola, tão crianças 

será que ainda tem crianças fumantes no meu esconderijo?

tem dias em que você vem fracionado num lampejo

e por dois segundos penso que

 você é 

filho caçula

pisciano 

músico

digita rápido

vê simpósios

lê gestalt

dormia com o dedo no nariz

não dança 

tem tatuagens bobas

e qualquer outra coisa menos importante do que

os outros dias que penso novamente nos seus dedos e na sua língua e nos toques hipersensíveis trocados em anos que viraram energia nuclear superacumulada

eu sou ainda 

hipersensível ao seu toque?

um dia te dei um cd embrulhado e você me abraçou forte e

senti todos meus átomos colidirem violentamente gerando o maior campo de força do universo no meu peito

I cannot stand to see those eyes

naquele dia eu achei que ia virar buraco negro e sugar o universo pra dentro do nosso abraço 

tem dias que penso no seu olhar que quando me olha vê um quase acidente nuclear dentro de mim

no seu eu vejo um sorvo de ar

que antecede algum acontecimento muito interessante

e um pouco de cansaço


eu não sei porque não mais te escrevi, mas eu acho que

tem a ver com a maioria dos dias


em que eu penso em você

por uma fração de segundo

que cabe

minha vida toda

a vontade que eu tenho de que você me engula 

a vergonha das minhas escolhas

o bar que eu sempre quis te levar mas fechou há anos

o dia em que você disse que eu sou uma garota dos infernos

(hoje sou uma mulher dos infernos)


e depois não cabe mais

depois eu penso nas suas escolhas

no seu tempo

no dia em que você quis casar

e casou 

mas para que não se esqueça

aqui lhe escrevo dizendo que 

penso em você todos os dias


don't you walk away


bexiga

tirei uma foto meio pelada no espelho
porque estava me sentindo só e pensei
(boba)
se com uma foto meio pelada eu conseguiria
um segundo
da atenção de alguém

o henrique
(bobo)
que estava com seus segundos à toa, perguntou
e esse umbigo aí?

o que é que tem meu umbigo?

e disse que cabia uma moeda de um real
não cabe porque é um umbigo pequeno
embora meu corpo seja
 grande
e é um umbigo jovem
embora meu corpo seja
 velho

o umbigo que era velho que nem eu foi afogado em lixo hospitalar enquanto me amarravam um novo
tipo nó de bexiga
de dentro pra fora

pra cicatrizar eu estufava o buraco com gaze seca
que no fim do dia saía molhada
e amarela e rosada e com cheiro de umbigo
novo

um dia abriu um pouco
(o umbigo)
como um portal para o meu lado de dentro
e o doutor apertou mais forte o nó de bexiga
pra eu não morrer de infecção

fico pensando no umbigo na sacola do lixo
e na caçamba do lixo
no caminhão do lixo passeando sem mim
pela cidade
até chegar ao destino do lixo hospitalar que não sei qual é
talvez devam incinerar tudo
talvez tenham cremado o umbigo velho

cinco meses depois em outra mesa de cirurgia me desamarraram o nó de bexiga pra tirar um órgão fora
eu tentei dizer
ei
não sei se vai dar pra abrir um buraco aí
nesse umbigo que é novo
mas dormi antes de conseguir e
acordei com hipotermia
e com o nó refeito em poça seca de sangue esfarelento
e outros pequenos cortes
bordados no abdômen

fiquei com vergonha de perguntar
por qual buraco saiu o órgão
fiquei brava porque o henrique às vezes
fala umas coisas muito bobas

ainda me sinto só

os olhos derramando vinho mais que porto

faz exatamente metade da minha vida desde a primeira vez em que te vi. foi no portão de casa, você entrou.
a gente mal se falou e morri de vergonha porque já gostava um pouco de você e fiquei com medo de que não me achasse bonita.
nervosa, eu tentei fingir que era bonita.

você era menino
hoje é um homem meio grisalho e sempre me pergunto qual o nome desse sentimento que dura mais que a melanina dos nossos cabelos. me pergunto será que desse jeito também é amor? eu li que paixão não dura mais de dois anos, mas nunca deu tempo da gente se apaixonar mesmo.

hoje tenho vários fios brancos também.
eles nascem desgrenhados no lado esquerdo da minha franja. uma ruga discreta entre meus olhos é cicatriz de várias preocupações.

mas também de todas tardes de sol aceso que apertei os olhos pra enxergar em tanta luz.
tem um pouquinho de você nessa ruga
será que tem um pouquinho de mim no seu cabelo grisalho?
acho que tem um monte da gente nas relações, nas sessões de terapia, nos antidepressivos. credo.
você disse de brincadeira que nossa hipocondria é uma conversão histérica por nunca termos ficado juntos. achei tragicamente romântico.

não sofro mais esse amor que ficou no quase porque ele é cheio de juventude
e em mim essa juventude está cada dia mais escassa.
em você eu não sei, você sempre foi tão velho. na voz, nas sobrancelhas, nos olhos. seus olhos tem mais de mil anos. acho que você já nasceu com o olhar velho.

mas não o sorriso
você sorri menino, ainda

não sei o que houve mas a gente ficou
tão duro
tão cansado
o amor jovem tem algo de revolucionário tipo a intro de heroes do bowie tipo sair correndo em ebriedade pra dar nosso primeiro beijo.

beijar verde com gosto de menta verde

eu até gosto da calmaria que a vida trouxe
amor calmo vida branda
sei lá, que bobagem isso
querer estar bêbada numa festa cheia de gente chata que não é você e te ligar cantando
where did you go

que bobagem

o pior texto que você vai ler hoje

se eu juntasse todas as drágeas cápsulas e comprimidos que tomei na vida para parar de ficar triste, qual tamanho será que teria esse monte?

hoje são dois ao dia, mas já houveram dias em que eram oito.
e houveram vezes em que desisti e só tomava café e engolia amargo.
e quando tomei todos de uma vez só, mas não sei se conta porque depois vomitei.

abri a calculadora 

6.840

(arredondei)

7.000.

sete mil vezes eu engoli pra não ficar mais triste. é um bocado de tristeza pra engolir.
empilhadas essas bolotinhas de suposta vontade de viver alcançam quanto? quantos quilômetros tem o meu caos?

70 metros 

será?

70 metros é um prédio de 24 andares
ou a distância da minha casa até o mercadinho
70 metros de doença e de cabeça maluca.

será que o prédio do Doutor Edson tem mais de 24 andares?

eu não me lembro, mas lembro que o consultório dele ficava no 12°, que é metade de 24. então a subida e descida do elevador eram 70 metros de viagem? 70 metros de ida e volta vertical para pegar o papel que me prescreveu:

tomar 7.000 vezes na vida pra ficar menos triste. 

Doutor Edson,
eu sinto muito mas esse tanto de drágea cápsula e comprido não deu muito jeito 

e se eu tomar em gotas?

fibroso

você parece
uma manga ourinho
que eu dei uma mordida só
e tava tão suculenta e macia
mas me encheu de fiapos o dente
e os fiapos ali fizeram casinha
me inflamaram a gengiva e também
me sangrou a boca toda
até caírem todos meus dentes
e só sobrarem os fiapos
e eu nem me lembro
o gosto da manga

talus

sonhei que você me olhava com os olhos de bicho. sonhei que dizia que meu osso talus é muito pequeno e por isso eu tropeço na rua dia sim dia não. sonhei que ainda se ria todo do versinho sujo que escrevi na parede.

acordei com dor no ossinho do pé e no coração choroso.

Ainda não me acostumei.